Li o livro “Ensaio Sobre a Cegueira” por volta do ano 2000 e recordo-me bem deste facto, porque anteriormente tinha-me debatido para conseguir ler o “Memorial do Convento”, sem grande sucesso. O “Ensaio sobre a Cegueira”, pelo contrário, conquistou-me facilmente e logo nas primeiras linhas a curiosidade ficou ali a pairar. Depois outros se lhe seguiram, como “A Caverna”, “O Homem Duplicado”, “Ensaio sobre a Lucidez” e, mais recentemente “As Intermitências da Morte”.

Do livro que li há 9 anos atrás, recordo-me de uma história intrigante que começava com uma súbita epidemia de cegueira colectiva. Recordo-me do período de quarentena, das limitações do ser humano para realizar as tarefas mais básicas, dos que se aproveitaram desta situação para revelarem o seu lado mais obscuro, mais cruel, ganancioso e violento. E aqui reside, talvez, a parte mais chocante do livro. Nós próprios sentimo-nos cegos e angustiados durante a sua leitura e a única coisa que nos liberta de todos os horrores, é o facto de estarmos a ser guiados pelas mãos corajosas e bondosas de uma mulher que não cegou (a mulher do médico) e que é a grande testemunha do caos e da desordem entretanto instalados. É ela que inspira confiança, é nela que depositamos as nossas esperanças.
O filme representa bem o livro. Gostei especialmente dos contrastes luz branca/sombra que o realizador incutiu em diferentes passagens. Pessoalmente, tratou-se de rever no ecrã algo que já havia mexido comigo e que, 9 anos depois, não me deixou indiferente.
É por estas e por outras que dou conta que estou a ficar velha. 9 anos...